O mundo capitalista atravessa uma crise global, estrutural e persistente, com momentos de maior agudização — como o atual — em que potências em decadência recorrem à guerra como estratégia para manter, ainda que de forma temporária, seu domínio. Em outros momentos, recuperações econômicas pontuais produzem a falsa sensação de estabilidade, mascarando contradições que seguem se aprofundando.Nesse cenário de crise sistêmica, em que as gerações atuais já não conseguem alcançar as mesmas condições de vida e conquistas econômicas das gerações anteriores, as relações sociais se transformam. Paralelamente, às lutas históricas das mulheres – no Brasil e no mundo – vêm acumulando conquistas importantes desde o início do século XX, ampliando direitos e tensionando estruturas historicamente desiguais.Como resposta a esse processo, assistimos ao fortalecimento de reações conservadoras que buscam reafirmar o poder masculino como eixo de dominação social. É nesse contexto de crise, frustração e disputa de sentidos que ganham espaço movimentos violentos de supremacia masculina, como o chamado movimento red pill, que se alimenta da tentativa de restaurar privilégios historicamente construídos.Esses movimentos não apenas defendem a inferiorização das mulheres, como naturalizam e legitimam a violência, reivindicando o controle sobre seus corpos e suas vidas. O resultado é o agravamento de uma realidade já brutal: uma sociedade em que mulheres são diariamente vítimas de feminicídios, estupros, assédios e diversas formas de violência física e psicológica. Ainda que essas violências incidam de forma mais intensa sobre as mulheres da classe trabalhadora e das periferias – historicamente negligenciadas pelo Estado – elas atravessam todos os espaços sociais.Os recentes casos de assédio e importunação sexual ocorridos em salas de aula do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes), no campus Vitória, evidenciam que não há espaço seguro para as mulheres. Alunas e servidoras convivem cotidianamente com o medo, com a vigilância constante sobre seus próprios corpos e com a pressão psicológica de saberem que são alvos permanentes. Enquanto isso, agressores seguem, mais uma vez, sem a devida responsabilização, e as vítimas carregam sozinhas as marcas dessa violência.Trata-se não apenas de violência sexual, mas também de violência institucional de gênero. Diante disso, o SINASEFE manifesta profunda preocupação com a morosidade na adoção de medidas efetivas de prevenção, apuração e punição dos casos, bem como com a insuficiência das políticas de proteção e acolhimento às servidoras e estudantes vítimas de violência – realidade que não se restringe ao Espírito Santo, mas se estende por toda a Rede Federal de Educação.A gravidade do problema se confirma também em outros espaços. A recusa da reitoria do Colégio Pedro II em implementar o Plano Setorial de Prevenção e Enfrentamento aos Assédios, às Discriminações, ao Racismo e à Injúria Racial (PSPE-CPII) – aprovado legitimamente por seu Conselho Superior em setembro de 2025, novamente em dezembro de 2025 e mais uma vez recentemente em março de 2026 – explicita que o enfrentamento à violência de gênero ainda encontra barreiras institucionais inaceitáveis, revelando o caráter estrutural desse problema.Diante desse cenário, o SINASEFE reafirma sua solidariedade às servidoras e estudantes do campus Vitória do Ifes e do Colégio Pedro II, e destaca a urgência da implementação de políticas efetivas, permanentes e articuladas para combater todas as formas de violência contra as mulheres no âmbito da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica.Não aceitaremos o silêncio, a omissão nem a impunidade: a violência contra as mulheres não é um desvio, é parte de um sistema que enfrentaremos com organização, consciência e luta coletiva.