Notícia SINASEFE IFSul

1 de junho 2026

Canguçu, a cidade dos quilombos no Sul do Brasil, preserva ancestralidade negra

Canguçu, a cidade dos quilombos no Sul do Brasil, preserva ancestralidade negra Em meio às serras do interior sul do Rio Grande do Sul, Canguçu abriga 16 comunidades quilombolas certificadas que mantêm vivos modos de vida construídos a partir da resistência negra. Entre a agricultura familiar, a preservação da ancestralidade e a luta pela terra, mulheres, jovens e lideranças enfrentam o racismo, a invisibilidade e a demora na titulação dos territórios.Localizada a cerca de 60 quilômetros de Pelotas, Canguçu tem cerca de 50 mil habitantes e forte predominância rural: entre 60% e 70% da população vive no campo. Reconhecido como Capital Nacional da Agricultura Familiar pela Lei 14.638, sancionada em 2023, o município concentra o maior número de minifúndios e pequenas propriedades rurais do Brasil.Marcada pela colonização alemã e pomerana, a cidade também guarda presença indígena e negra. Os primeiros habitantes da região foram os indígenas Tapes, e o nome do município tem origem indígena. Entre as interpretações registradas, uma associa o topônimo a Caa-Guassu, expressão ligada à ideia de “mata grande” ou “mato grosso”, em referência à vegetação que cobria a encosta da Serra dos Tapes.A história oficial de Canguçu começa por volta de 1800, na localidade hoje conhecida como Canguçu Velho. Hoje, além da agricultura familiar, a cidade reúne cerca de 500 famílias quilombolas nas comunidades certificadas. Em dez dos 16 quilombos reconhecidos, as lideranças são mulheres.
Refúgio depois das charqueadasA presença negra no município remonta ao período escravocrata e às rotas de fuga de pessoas escravizadas vindas das charqueadas da região. De acordo com o artigo “Colonização negra nas cidades de Pelotas e Canguçu do Estado do Rio Grande do Sul”, publicado em junho de 2022 na Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação (Rease), Canguçu serviu como refúgio para negros mesmo após a escravidão.“Sendo que foram instalados vários quilombos nessa localidade, tendo como destaque o quilombo de Maçambique, denominado assim pela figura de um escravo intitulado de Moçambique que lutou pela abolição da escravatura”, aponta o texto.Do Quilombo Maçambique surge também a origem do Quilombo Lemos, em Porto Alegre, a partir da trajetória de Délzia Gonçalves de Lemos, neta de escravizados nascida em Canguçu. O caso evidencia como deslocamentos de famílias quilombolas do interior e da metade sul do estado também ajudaram a formar territórios negros em áreas urbanas do Rio Grande do Sul.
‘A comunidade quilombola é agroecologia’No Quilombo Passo do Lourenço, no quarto distrito de Canguçu, a quilombola Tatiana Dias Shug resume a relação da comunidade com o território e a ancestralidade. “Sou da comunidade quilombola Passo do Lourenço Arredores e a gente vive da agricultura familiar. Resgate da nossa comunidade, da nossa família e dos antepassados que foi deixado para a nossa família, a gente cultiva até hoje.”Além da produção agrícola, o quilombo preserva manifestações culturais herdadas dos antepassados, como o grupo de dança da comunidade. Shug estima que existam mais de 600 famílias quilombolas no município. Apenas no Passo do Lourenço, são 58 famílias vivendo da agricultura, da cultura e da preservação dos modos de vida tradicionais. “A gente diz que foi reconhecido pela Fundação Palmares faz uns 20 anos, mas meus antepassados… Eu mesma nasci e me criei lá. Meu tataravô resistiu esse tempo todo”, relata.Ela também recupera a memória das rotas de fuga formadas a partir das charqueadas de Pelotas. “Os fundadores, os primeiros que vieram, vieram fugidos das charqueadas. Pararam lá no Passo do Lourenço. Então o nosso quilombo resiste há muito tempo.”As lembranças familiares atravessam gerações. “É uma história de sobrevivência. Acho que a gente sobrevive de luta, de amor. Sempre foi passado muito amor. Os saberes foram criados com muita dificuldade.”A agricultura familiar é a principal fonte de sustento das comunidades, com milho, feijão, hortaliças, pães, doces e artesanato comercializados em feiras e entre moradores vizinhos.“A comunidade quilombola é agroecologia. Ela sempre produz sem veneno. A gente vem trazendo geração por geração as mudas, as sementes. Então a gente sempre produz orgânico.” Segundo ela, parte da produção também é destinada às escolas por meio de projetos de alimentação escolar.
Mulheres sustentam a organizaçãoA presença das mulheres na organização comunitária aparece como uma das marcas dos quilombos de Canguçu. “Os homens sempre vão para as lavouras, para os serviços mais pesados, e as mulheres sempre ficam indo para as reuniões e reforçando. Então a mulher tem sempre o trabalho de cuidar da família, de cuidar do alimento”, conta Shug.Das 16 comunidades quilombolas do município, dez são coordenadas por mulheres. Para a vereadora Maica Tainara Soares Ferreira, o dado revela o protagonismo feminino. “As mulheres sempre estão à frente do processo, de luta, de organização”, afirma.
A terra no centro da lutaApesar dessa organização comunitária, a titulação dos territórios segue sendo um dos principais desafios enfrentados pelas comunidades. Todas as 16 comunidades quilombolas de Canguçu foram reconhecidas e certificadas pela Fundação Cultural Palmares ao longo dos anos, em portarias publicadas a partir de 2009. O que falta é a etapa de identificação, delimitação e titulação final das áreas pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).“A luta do Brasil todo é a titulação da terra e o reconhecimento dos nossos territórios”, afirma Shug. “Hoje a gente não tem esse reconhecimento. Tem processo aberto no Incra, mas está custando para chegar.”Sem a regularização fundiária, as famílias enfrentam dificuldades para acessar políticas públicas e financiamentos. “Hoje, para fazer um financiamento, os bancos precisam ter terra como garantia, e a gente não tem.”As dificuldades também se refletem no acesso à educação e à saúde. Na educação, Shug aponta a ausência de escolas quilombolas em Canguçu. “As crianças saem da comunidade e têm que se reeducar para estudar em uma escola branca. Aí perde toda aquela vivência.” Segundo ela, isso impacta diretamente no processo de alfabetização.Para ela, a mudança depende de políticas públicas efetivas. “É importante reconhecer que as comunidades existem. Existe política, mas ela não chega até as nossas comunidades.”
Bisa Sabina, memória em construçãoAlém das 16 comunidades quilombolas já certificadas em Canguçu, o Quilombo Bisa Sabina, no quinto distrito, também carrega histórias de resistência e busca reconhecimento oficial. A liderança Vanessa Rodrigues Freitas, de 37 anos, nasceu em Pelotas e se criou em São Lourenço do Sul, onde começou a aproximação com a ancestralidade africana. “Foi onde iniciou essa educação da consciência da nossa ancestralidade africana.”Mais tarde, ao se mudar para a localidade da Armada, em Canguçu, Freitas percebeu que vivia em um território historicamente quilombola. “A família Mendes vem dessa coisa de morar todo mundo no mesmo território, com várias casas próximas, criação animal, plantação de mandioca, batata-doce, feijão, os pomares de fruta. Então a gente notou que já estava quilombando há muito tempo.”O nome da comunidade homenageia Bisa Sabina Mendes, ancestral da família que resistiu à expulsão do território por grandes fazendeiros. “Ela defendeu esse território junto com seus filhos.”A simbologia da comunidade também expressa essa memória. Foi Freitas quem desenhou a bandeira do quilombo, reunindo fé, culinária, música e ancestralidade negra. “Coloquei o trigo para simbolizar a casa de farinha, o rosário pela fé, o tambor pela nossa música e um pezinho de pimenta pela culinária. E tudo em formato de coração, porque o povo quilombola é muito afetuoso.”Hoje, o Quilombo Bisa Sabina reúne 21 famílias, entre idosos, jovens, crianças e uma gestante. “Não tem preço ter os jovens dentro das atividades quilombolas. As crianças estão sendo conscientes de quem elas são e das suas origens.”

Foto: Rafa DottiFonte: Brasil de Fato