Notícia SINASEFE IFSul

5 de outubro 2026

# Dia seguinte

# Dia seguinte O primeiro dia marcado pelo gosto de derrotas eleitorais importantes no campo político em que atuamos como feministas, nas lutas antirracistas, anti-LGBTfóbicas, anticapacitistas, pelo fim das opressões e pela vida das mulheres e meninas.A extrema direita, a exemplo do que ocorre em vários países das Américas, tem avançado inconteste. Com o voto da maioria, sim, e com o apoio fundamental de setores médios “críticos” ao que o chamado campo democrático tem apresentado como proposta de presente e futuro da sociedade.O distanciamento de quem tem a capacidade de “formar opinião”, organizar as lutas e as festas tem sido acompanhado por uma leve lembrança de um passado conectado, com um leve tom blasé de que já avisamos que isso aconteceria.O posicionamento irretocável da mídia golpista, das big techs — que usamos para nos comunicar —, do agronegócio que lucra e mata, dos bancos — onde a crise é rapidamente absorvida —, da pressão do Congresso Nacional, das assembleias legislativas e das câmaras de vereadores para abocanhar o orçamento público; o grande sistema jurídico, que insiste no descumprimento de leis aprovadas e importantes para a maioria da população. Observemos, por exemplo, a aplicabilidade dessas leis que “protegem” mulheres e meninas.O domínio de fato da insegurança nas vilas e nas vidas, seja através da violência policial, seja pela violência das milícias e do tráfico. Tudo junto e misturado.A tragédia social é anunciada quando passa a ser experimentada como verdade verdadeira a ideia de que a esquerda precisa manter “pobres na pobreza”, de que quem tem “emprego fixo” está ali por mérito e já está resolvido e de que, das grandes fortunas, não temos nada com isso.Outro dia, ouvi um pouco sobre como vamos nos tornando uma sociedade mingau, sem rugosidade. Se for para o atrito, que seja para cortar.Nas escolas infantis, quando as crianças falam sobre política, saem no tapa ou optam por calar. Como apreender sobre democracia, reparação, cidadania e soberania, se nossa experiência cívica está reduzida a votar ou chegar às 24 horas anteriores a um pleito e ainda não ter feito suas escolhas eleitorais? Escolhas que poderiam ter sido também escolhas político-afetivas, construídas no decorrer de uma eleição a outra.Direitos reparatórios em uma sociedade escravocrata, machista e opressora ainda são lidos como luta de negras e negros. A luta por uma sociedade mais igualitária ainda não tem a perspectiva da equidade. O lugar da “fé” vira xingamento ou atos de violência sutilmente aceitos.Importa contar e reconhecer, todos os dias, que somos e vivemos em uma sociedade conservadora, que o poder ainda é pátrio (vide família Bolsonaro), que a violência passa a ser identificada por muitas gentes como resultado de uma certa “libertinagem” que “essa gente” que não tem o que fazer inventou.Eu, que me ligo no grupo da gente que inventa e reinventa, a cada segundo, formas de escutar e falar, sei o peso dessa dissociação.Ontem, junto com quase 50% do povo brasileiro, votei em Lula, que está no segundo turno. Há esperança na briga, mas há cuidado nos passos e nos abraços a serem realizados.Ontem, votamos em seis pessoas. Nenhuma das que votei foi eleita. Gente boa, com compromissos populares nítidos. Mas os sonhos existem para nos ajudar a entender a realidade.Agir como grandes exércitos, sem reconhecer os terrenos em que nos mexemos, nos traz derrotas históricas. Mudamos e conservamos, não revolucionamos.Cada vez mais, precisamos respeitar as tradições dos povos originários, dos povos milenares. Escutemos o que nossos inimigos colonizadores dizem e oferecem. Quase sempre encontraram campo fértil para avançar. Quais são, então, nossos caminhos subterrâneos, circulares e ascendentes? Quais temos fortalecido?Hoje, não digo que o povo vá se ferrar, pois também sou povo. Reconheço que sou uma mulher que luta e preciso conhecer as histórias e as conexões que as mulheres da extrema direita têm usado na expansão de sua política organizativa.Vejo e revejo que a luta por poder está no centro. Poder econômico, familiar, territorial, dos saberes.Trump não será eterno. A política da extrema direita não tem como contemplar a maioria. Por isso, importa-nos reeleger Lula, ainda que em um cenário governamental insalubre.Importa saber que a organização da classe trabalhadora será obra de sua própria ação e que existem diversidades nessas formas. Os objetivos são comuns, e é necessário alargar para que estejamos tod@s.E, na hora de perguntar onde estão negras, negres e negros, que são maioria da população numericamente falando, que não sejam simplesmente responsabilizados pelas derrotas eleitorais históricas. Olhemos com a simplicidade devida para o fato de que os lugares de poder neste país e no mundo continuam sendo exercidos por outras racialidades, principalmente branca e masculina.Fatores que são importantes para nosso posicionamento neste segundo turno: ler, entender, mover e comover pessoas.Em Pelotas/RS, Lula venceu. Vamos entender o que as urnas nos contam sobre as preferências e as regiões de quem votou? Verificar as regiões onde a extrema direita ganhou? Associar esses resultados aos fatores objetivos e subjetivos das populações que habitam cada lugar desses?Afinal, como dizem as mães, quando perguntadas sobre qual filho amam mais, respondem que amam a todos igualmente. Na política, como no amor de mãe, sabemos que, para ser igual, há um princípio anterior: ser equânime. A cada uma e a cada um de seus filhos correspondem sentidos e sentimentos que precisam ser cuidados.Façamos nossa lição de compromisso a partir do nosso ponto. A sabedoria é saber que não estamos jogando um jogo sozinhas em campo.Lula ganhou no Nordeste, seu lugar no mundo.
O QUE ISSO NOS CONTA?Lula perdeu no Rio de Janeiro, berço da milícia e da família Bolsonaro.
O QUE ISSO NOS CONTA?As grandes manifestações são fundamentais, e as pequenas rodas de comadres e vizinhas também o são.Façamos o melhor que pudermos. Sejamos lugar das cozinhas ancestrais, onde os alimentos são preparados e comidos.Fortalecer o bando é também fortalecer os sentimentos de continuidade. No nosso caso, eleger e se comprometer com aquilo a que nos conectamos.Pois a mudança, neste momento, é representada pelo Sr. FEUDAL bolsonarento. E nós, que sempre nos apresentamos como seres de mudança, temos pela frente o desafio de liderar e lidar com esse paradoxo.O novo no Brasil é o que temos de mais colonizador. O velho (de barba branca) ainda representa as mudanças possíveis em um país capitalista, feito nossa terra chamada Brasil, que, para sobreviver, precisa se ver como PINDORAMA, ainda que não sejamos uma terra só de palmeiras.O fascismo precisa da tristeza, do medo e da insegurança para vicejar.A alegria que poderá nos levar à vitória eleitoral neste segundo turno haverá de reconhecer essa tristeza para mudá-la.Esse é o nosso tempo! Vitórias e derrotas a ele pertencem.Sair do anonimato ajuda.Circulemos!Eva Santos
Assessora de Política e Formação Sindical do Sinasefe IFSul. Educadora Popular. Assistente Social. Coordenadora do Gamp Feminista Pelotas.

Pelotas, 05/10/26.

Tags relacionadas: